Cada relacionamento conjugal tem seus interesses próprios, sendo que podem até se contradizer quando comparados. O que é bom em um relacionamento pode ser prejudicial em outro. O que num relacionamento é leveza pode ser terrível peso em outro. É assim a dinâmica de cada vínculo que é criado.

No caso da perda do parceiro ou parceira por morte isso precisa ser muito bem compreendido para se evitar tocar em realidades muito difíceis de serem desemaranhadas, obviamente, aqui refiro-me à dimensão espiritual.

A  morte da esposa do profeta Ezequiel, por exemplo, no contexto bíblico e na circunstância em que o episódio teria acontecido, o viúvo se viu proibido de lamentar a perda da amada. Depreende-se, portanto, que chorar e lamentar a perda da esposa ou do esposo é algo universal, todos podem fazê-lo, ou seja, o luto deve ser vivenciado e não recalcado porque quando isso acontece sem que haja um motivo claro ou oculto, as consequências são penosas para quem engole o pranto e não termina seu período de luto. O caso do profeta Ezequiel é algo à parte.

Mas, neste estudo resumido, é preciso olhar também para o lado do novo companheiro ou companheira que tem, como se sabe e é natural, suas próprias necessidades. Quando se coloca em segundo plano na nova relação por respeito ao morto e à dor de quem perdeu a pessoa, o relacionamento já está condenado, portanto, vê-se, assim, que quem entra num relacionamento cuja oportunidade surgiu devido à morte de alguém, não deve, em hipótese nenhuma, se colocar voluntariamente como uma peça de encaixe ou de complemento. Isso não funciona.

Quem está num novo relacionamento em que o parceiro ou parceira tenta continuar algo que já terminou devido à morte do antigo companheiro ou companheira, acaba influenciando os próprios parentes de quem morreu a entrarem nesse teatro de sofrimentos, dando-lhes o mesmo papel que tinham antes, inclusive, nas cobranças, nas exigências e nas comparações com quem já faleceu. E isso dói muito, dói na alma.

Resumindo, podemos dizer que quando o viúvo ou viúva ainda permanece na esfera do parceiro morto, torna o novo relacionamento impossível de se abrir para algo maior e a tendência é que se afunile até acabar, deixando traumas severos para si e para quem chegou depois e lhe foi negado um lugar original, sendo pressionado para interpretar o papel de alguém morto.

A ansiedade, a angústia, a depressão e o pânico podem ocorrer em pessoas que tentam se despersonalizar para tentar vivenciar algo no lugar de quem já faleceu e tinha um lugar especial na vida do parceiro ou parceira interessado na nova relação amorosa.  Quando isso é elaborado antes de entrar no novo relacionamento, evitará prejuízos na vivência da sexualidade do novo casal e de eventual morbidez que pode se instalar no cotidiano da convivência. Quem entra num relacionamento conjugal com um viúvo ou viúva deverá saber que terá um lugar que lhe pertence sem precisar tentar ocupar o lugar de quem já morreu.

De toda forma, “os vivos ficam” e é preciso deixar os mortos irem para o “reino dos mortos” e que lá permaneçam em paz. Como ensinou, Hellinger,  se referindo aos mortos: “nós os deixamos partir, sem desejo e sem preocupações. Deixamos que partam, sem exigências e sem querer recuperar algo para eles, e para nós”.  Assim deve ser a atitude amorosa de quem fica em relação aos  parceiros e parceiras que morrem.

Conheci, após me mudar da região amazônica brasileira para o sudeste,  um homem com mais de sessenta anos que ficara viúvo há mais de seis anos e vivia reflexivo e a prestar uma espécie de culto à falecida esposa, inclusive, conservava em perfeito estado o carro dela, realizando manutenções e revisões mecânicas periódicas e fazendo o veiculo funcionar diariamente. Parecia ser algo muito nobre e não deixava de ser, porém, essa fixação o mantinha preso na morbidez e o impedia de terminar o luto e se abrir para a vida. Após ser convencido de que era melhor vender o carro e deixar a esposa morta em paz, ele voltou a se alegrar com a vida e em poucos meses já se permitia iniciar um novo relacionamento amoroso saudável.

É preciso reconhecer, de forma madura e sem ilusões ou medos irracionais, que muitas questões que enfrentamos na vida vem dos sentimentos que se cultivam em relação aos mortos, não haveria exceção quando se trata da morte de maridos ou esposas, noivas ou noivos, namoradas ou namorados… faz-se necessário se desprender dos mortos, por mais que os amemos, para seguir com a vida!

É recomendável para quem está no estado de viuvez recente ou não, um tratamento profundo para acessar compreensões das dinâmicas que ocorrem entre quem morre e quem fica após o desenlace da pessoa amada antes de decidir começar um novo relacionamento, preferencialmente, o casal de namorados ou noivos que estejam nessa situação em que um ou ambos sejam viúvos.

As boas soluções incluem também a disposição de quem entra no relacionamento com um viúvo ou viúva para compreender os movimentos de quem perdeu alguém a quem amava, que tem altos e baixos por algum tempo e paciência para que  a pessoa enlutada consiga olhar de novo para a vida.

Cada relacionamento tem seus próprios propósitos e o casal que se forma após a viuvez de um ou de ambos deve-se perguntar e dialogar sobre o que querem na nova dinâmica que irão implementar. Isso é deixar  que  “os mortos enterrem seus mortos” e é olhar para o mais, para o futuro e para a vida de forma adulta e bem resolvida. O que for diferente dessa postura, certamente, colocará o novo casal em um gasto imenso de energia, energia que poderia colocar a serviço de si e do seu amor! (Aluísio Alves: Psicanalista, Terapeuta Sistêmico, Pós-Doutorando em Educação, Doutor em Educação Médica, Hipnose Clínica, Mentoria de Líderes e Equipes).

Uma resposta

  1. Bom dia, me identifiquei muito na reflexão. Iniciei um relacionamento com um homem que estava perdendo sua esposa para o câncer. Foi tudo muito intenso pois eu já vinha de um divórcio pesado e ele estava com a esposa em estado terminal. Após a partida dela , continuamos e ele não vivenciou sozinho o luto, respeitei todo o momento, e com o passar dos dias percebi a distância emocional , todas as datas comemorativas ele se afundava , sumia, e eu fiquei em segundo plano. Sem direitos a explicações e pelo contrário eu q tinha q compreender a dor dele o tempo todo. Resolvi dar um tempo e pedir a ele que vivenciasse o luto, para se libertar e poder amar alguém de verdade. Porque até dizer que gostava mas não me amava eu escutei e com isso fui cancelando meus sentimentos e desejos. Sei q também tive culpa de não ter pedido um tempo antes para ele passar o luto, e como foi dito relacionamento assim despende ao fracasso.

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