Muitos adoecimentos enfrentados por tantas pessoas acontecem por conta do que chamo de cansaço na alma. Infelizmente, o número de gente exaurida, desgastada e sem saber o que fazer com a perda contínua da energia para viver tem aumentado.

Toda família é o canal da vida para cada pessoa e isso deve ser motivo de gratidão e reconhecimento. O que traz desequilíbrio é a dinâmica que ocorre no relacionamento dos integrantes do grupo familiar em que, pelas mais diversas razões, algumas pessoas assumem a tarefa de carregar a família nas costas e isso, no tempo de cada um, entra em colapso exatamente pela exaustão de quem consciente ou inconscientemente toma para si essa tarefa impossível. Impossível? Sim, porque esse tipo de postura, mesmo que tenha ares de coisa boa, vai contra as leis da vida e enfraquece todo o grupo familiar. A família, independentemente da sua formação, origem, condições materiais etc, deve se mover para a frente sem que para isso tenha que ser carregada por um ou outro integrante. Esse tipo de dinâmica adoece a pessoa que se coloca como grande para carregar a família e adoece também muitos outros membros, inclusive, descendentes.

Não ser carregado por ninguém e nem carregar ninguém “nas costas” é o saudável para todos num grupo familiar. Disponibilizar apoio e ajuda ou receber auxílio em momentos da vida deveria ser algo natural e tranquilo, porém, a experiência do dia a dia mostra que quando falta esse equilíbrio saudável, os problemas aparecem em diversos setores afetando o corpo, a parte mental, o emocional e a vida espiritual de muitas pessoas.

Alguns exemplos de soluções e curas que aconteceram para pessoas que se deram conta dessa relação doentia que mantinham com suas famílias de origem:

era uma pessoa jovem, empreendedora de sucesso comercial, mas, que por diversos motivos, desde criança era quem ficara encarregada de cuidar de questões que os adultos deveriam cuidar, desde idas a bancos, visitar parentes doentes ou com outros problemas até olhar o que era necessário comprar para a casa, dentre outras obrigações. Não tinha tempo para brincar porque o tempo todo era chamado para fazer alguma coisa que os mais velhos poderiam fazer. Cresceu, estudou e continuou nesse padrão de só se preocupar com a família e até gostava disso, se sentia muito poderoso e amoroso. As necessidades da família só aumentavam, essa pessoa abriu um comércio e todos os familiares viviam dependentes. Bom empreendedor, abriu uma segunda loja, mas parece que nada era suficiente, sempre precisava trabalhar mais e mais… teve um infarto, foi parar no hospital e lá teve tempo de tomar consciência de que não tinha vida, não tinha tempo para as relações amorosas e nem para os amigos, aliás, sentia-se profundamente solitária… recuperou-se e decidiu procurar ajuda emocional porque o médico lhe disse que isso era importante juntamente com cuidados alimentares e atividades físicas monitoradas por profissional. Na sua terapia, tomou consciência de que era apenas um integrante da família e não o salvador de todos. Chorou muito ao descobrir que isso não era bom para ninguém da família. No seu ritmo próprio, essa pessoa se desapegou desse papel de importância e passou a viver e tomou a difícil decisão de cortar as dependências que vinham dos membros da sua família de origem. Prosperou ainda mais e já está num relacionamento amoroso.

Outro caso muito interessante foi o de uma pessoa que não conseguia progredir nos estudos e estava sofrendo episódios de algo semelhante à síndrome do pânico. Chegava a perder temporariamente a visão quando se via obrigado a estudar e se preparar para as provas. Durante seu processo de tratamento reclamava muito dos pais e de outros membros da sua família, sentindo-se um injustiçado por várias razões que alegava sempre ter razão. Quando se deu conta de que havia sido estimulado a se comportar como alguém sempre necessitado de ajuda e, ao mesmo tempo, enxergou o potencial que estava latente dentro de si, deu a volta por cima e renunciou à atitude de querer ser carregado pelos outros o tempo todo. Seu processos foi rápido. Em pouco tempo os sintomas e reações corporais desapareceram e se livrou da autoimagem de ser alguém frágil, incapaz de enfrentar a vida, elevou sua consciência para um nível que lhe permitia viver a vida real, com desafios, alegrias e frustrações. Terminou sua graduação e já está planejando ingressar no mestrado.

A família de origem é o ambiente onde os integrantes criam seus modelos mentais para lidarem com a vida, portanto, quando as dinâmicas familiares são saudáveis, ajudam os integrantes a seguirem melhor e saberem enfrentar com maturidade os desafios e problemas que o cotidiano traz. (Aluísio Alves: Psicanalista, Terapeuta Sistêmico, Pós-Doutorando em Educação, Doutor em Educação Médica, Hipnose Clínica, Mentoria de Líderes e Equipes).

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