Os traumas psicológicos causam diferentes desgastes emocionais e podem debilitar pessoas e até mesmo incapacitar muita gente para o exercício profissional ou atividades cotidianas. Esses traumas podem ser de níveis tão altos que geram um sentimento de grande dificuldade para administrá-los podendo, inclusive, levar pessoas à perda da noção da realidade e comprometer seriamente a autopercepção.
Uma das realidades mais repetitivas que encontro durante os processos terapêuticos é o fato de um trauma do grupo familiar passar de geração para geração e afetar gravemente os descendentes.
É claro que, desde as primeiras descobertas de Freud nessa área, já havia sido percebido que tudo aquilo que se recalca, que se reprime, em algum momento e das mais variadas formas, se manifesta através de sintomas físicos ou comportamentais. Isso já bem conhecido no que se referia à experiência individual, porém, aqui, estou abordando traumas que afetaram um grupo familiar inteiro ou grande parte dele.
Alguns experimentos iniciais dão conta de que acontecimentos traumáticos que marcam uma sociedade, um país, um continente, podem repercutir em gerações sucessivas, ou seja, nem mesmo a passagem do tempo, apaga determinados estigmas. Um exemplo pode ser a escravização de povos e outro é a guerra. Trazendo para os tempos atuais, podemos perguntar sobre como a guerra Rússia X Ucrânia marcará as futuras gerações, especialmente, russos e ucranianos filhos dos atuais envolvidos no conflito.
Voltando aos fenômenos que acontecem no aspecto pessoal e familiar, os traumas podem ser entendidos como acontecimentos que afetaram uma geração, seja a morte violenta de um integrante, uma promessa não cumprida, um crime, brigas, abandonos, furtos e roubos, separações de casais, falências, problemas na partilha de herança, doenças graves, dentre outros exemplos…
Traumas psicológicos que afetaram um ou mais antepassados podem repercutir de variadas formas nos descendentes.
É preciso aqui fazer uma observação muito séria: cada caso deve ser analisado dentro do contexto do paciente e do seu grupo familiar. Não existe um modelo pronto que sirva e se aplique a todas as pessoas. Isso é um alerta para que você não caia na armadilha de explicações genéricas que correm soltas por aí e que não resolvem os emaranhamentos familiares… pelo contrário, só fazem piorar o estado emocional e mental de quem fica acreditando que tudo pode ser explicado por simplificações sempre rasas.
Os traumas transgeracionais, na maioria dos casos que já atendi, são de difícil percepção. Ficam camuflados atrás de sintomas e se não houver uma postura muito séria e comprometida tanto do paciente quanto do profissional, isso nem é percebido e continua a prejudicar quem está sofrendo.
Por outro lado, quando é feito um tratamento correto, eficaz e sob medida para a necessidade de quem procura ajuda, o resultado é imediato porque quando a pessoa traz à consciência o que estava oculto nas memórias familiares, na maioria das vezes, segredos muito bem guardados, sua alma se encaminha para a solução e a cura…mas, repito, isso não é algo automático e genérico. A alma tem seu próprio movimento e ritmo.
A verdade, porém, mais cristalina e surpreendente para muitas pessoas é que os traumas de antepassados passam de uma geração a outra até que alguém do grupo familiar, mesmo os de gerações bem distantes do tempo dos acontecimentos, desperte e olhe com amor para os ancestrais e suas histórias difíceis.
A boa notícia é que, se esses traumas transgeracionais forem tratados de forma segura, acontecem soluções.
Não digo trauma no senso comum mas todas as pessoas carregam consigo por toda ou parte da vida algo que pudesse não vivenciar ou esquecer, abraço ao amigo!